Somos do tipo que gosta de fazer economias no dia a dia para poder viajar. Evitamos gastar muito em hábitos consumistas como comprar roupas e outros produtos que não são uma real necessidade do cotidiano. Desta forma focamos a nossa energia e economias em desbravar um novo continente, país ou cidade. Este sonho de conhecer e fazer parte do mundo é algo que compartilhamos desde o dia que nos conhecemos. Sempre conversamos sobre outros povos, línguas e vivências, de como tornar isto parte da nossa realidade, e hoje, depois de quase três pares de anos juntos, podemos dizer que já desbravamos alguns cantos especiais. Quando voltamos de um destino, já pensamos e nos planejamos para um próximo. As viagens podem acontecer a sós, na companhia um do outro ou com outras pessoas também. Viajar pode ser incrível dos dois jeitos, mas é importante saber reconhecer e escolher as companhias ideais. Nem sempre o melhor amigo é um bom companheiro de viagem.

Todos conhecemos pessoas dos mais variados tipos. Cada um com seus hábitos e manias que aplicados ao modo viajante, criam estereótipos. Conhecemos os planejadores excessivos, que querem deixar tudo enquadrado nos mínimos detalhes. Ao chegar no primeiro destino já estão pensando no horário que devem partir para o próximo. Tem também os famosos “turistas”, que não tem tempo ou paciência de pesquisar o destino e montar um roteiro interessante. Estes, em grupo, formam os ônibus turísticos que sem movimentam em bando, param e tiram foto dos pontos principais. Os boêmios economizam na alimentação e nos passeios a museus para poder beber uns drinques extras durante a madrugada. O objetivo é ver o nascer do sol dos mais variados ângulos. Existem também os compradores compulsivos. A viagem se torna o motivo para renovar o guarda-roupa. Ao invés de buscar pelos pontos atrativos das cidades busca pelas lojas e outlets que podem ajudar nesta missão de levar a mala explodindo de volta para casa. Os leitores dos guias Lonely Planet desbravam as cidades como enciclopédias ambulantes, citando datas e acontecimentos para quem quer ouvir, e para quem não quer também. Os alternativos ao extremo são aqueles que não querem ser vistos nos pontos turísticos. Ver a Torre Eiffel para que se posso ver esta pequena loja de discos de vinil e câmeras fotográficas retrô? Não há mal em ser de um ou de outro jeito, de gostar ou admirar a cidade de formas diferentes, o importante é encontrar alguém que seja compatível com a sua forma de viver estes momentos. O desalinhamento neste tipo de vivência causa desconfortos e discussões.

E ai fica a pergunta, que tipo de companhia somos nós? Eu diria que um equilíbrio de algumas características citadas. Somos mais do tipo do dia, que acorda cedo para aproveitá-lo ao máximo. Provável que evitaremos baladas e afins, mas um bom jantar e talvez drinks em algum lugar movimentado nos atrai para caminhar pelas noites e observar o movimento daqueles que saem da toca quando o sol se põe. Ao escolher um destino as vezes já reservamos hospedagens, mas outras vezes, se fazemos uma viagem de carro por exemplo, gostamos de deixar tudo em aberto. Desta forma vamos sentindo cada local e definindo se devemos ficar um pouco mais ou seguir em frente. Isto possibilita uma flexibilidade de acordo com o momento. Se reservarmos a hospedagem, normalmente os passeios ficam em aberto. No dia anterior, à noite, provavelmente durante o jantar, decidiremos o roteiro do dia seguinte. Gostamos de carregar conosco o elemento de improviso e espontaneidade. Por isso também evitamos grandes grupos de turismo e longas filas. Ao visitar destinos gostamos de conhecer os ícones, mas ao mesmo tempo, para chegar lá, gostamos de caminhar pelos entremeios da cidade, passando por pequenos comércios e residências de bairro, observando os moradores fazendo suas rotinas diárias. Aproveitamos para gastar as solas dos sapatos, para de fato sentir o piso, cheiros e barulhos do local. O transporte público (ou privado) entra em ação para distâncias muito longas. Preferimos economizar em compras e investir em boas refeições. Quando chegamos, sentir os sabores locais faz parte dos itens “a serem visitados sempre”. Saímos um pouco da rotina de alimentação para provar salgados, doces e bebidas também. Tudo aquilo que faz parte do paladar e tradição, deve ser provado, mesmo que depois não seja repetido. Ao visitar museus e monumentos, aproveitamos também para ler um pouco sobre a história, imaginar o que se passou ali e entender o porquê aquilo foi construído daquela forma. Isto faz parte do sentir e conhecer.

Já viajamos com diferentes grupos, de diferentes tipos, antes de nos conhecermos e nesta jornada juntos também. Esta viagem para Portugal, nestas últimas duas semanas, apenas reafirmou o quanto a companhia é importante e faz diferença para nós (e acho que para todos). Viajamos com Carol e Marcos, nossos cunhados, e concluímos que a viagem fluiu de forma harmoniosa e interessante. Provamos, discutimos, aprovamos e desaprovamos ruas, museus, monumentos, sabores e movimentos. Para nós, viajar com pessoas funciona como um relacionamento temporário. Nos abrimos para ouvir, compreender e aprender com aqueles que estão nos acompanhando naquele período. Esta foi uma viagem que abriu o olhar para novas ideias, para novos sabores e para uma beleza urbana que cativou o nosso olhar e coração.