Hoje o dia amanheceu verde, amarelo, azul e vermelho. Bandana com as cores da pátria na cabeça daqueles que só usam chapéu na praia; Bandeiras penduradas para fora das janelas das SUVs filmadas, que normalmente não abrem os vidros blindados nem no litoral. A maioria do povo esticando até tarde na cama em plena quinta-feira; Marginal Pinheiros em São Paulo com pista livre, tipo época de carnaval no centro comercial do país. Flores e bombons no café da manhã; Casais trocando juras de amor eternas, tipo shakespeare, só que pelo instagram. É hoje, gente, é hoje! Abertura da Copa do Mundo 2014 no Brasil e estréia da seleção, tudo verde e amarelo. Feriado nacional devido às comemorações, tudo azul. Dia dos namorados, tudo vermelho.

Ao contrário de praticamente todos os brasileiros, eu não sou muito chegado em futebol. Claro que quando eu era garoto, quis ser um jogador. Minha falta de coordenação e chute fraco foram elementos importantes no término deste sonho breve, mas não decisivos. Em certo ponto da vida, percebi, que toda a paixão futebolística que pulsa na veia da nação, não corria pelos meus vasos sanguíneos. Mas a copa é diferente. A copa do mundo é um daqueles eventos que te fazem acordar no meio da madrugada para assistir a transmissão das partidas acontecendo do outro lado do planeta. É um daqueles momentos que um grupo de pessoas vivendo num mesmo pedaço de terra realmente se sente uma nação. E isso tudo tá rolando aqui, agora. Hoje, eu, e todos os brasileiros são técnicos e torcedores roxos - ou melhor, verdes.

O povo vai na onda. “Vamos remar contra a corrente, desafinado coro dos contentes” - cantou Humberto Gessinger. Até mês passado, era #nãovaitercopa. Semana passada, começou o #vaitercopa. Antes, era frustração. Pelo superfaturamento dos estádios; pelas leis da FIFA serem superiores as nossas próprias; pelas palavras de ordenha pronunciadas pela pastora Dilma. Hoje, é só alegria. Não tem trabalho. O MST vai ficar nas próprias terras. O boato do PCC vai virar meme, e o metrô vai desafogar. Hoje é dia cantar em uníssono, bater lata no mesmo compasso, e mostar pro mundo que nessa onda de futebol, não tem pra mais ninguém. E claro, nós temos que nos preparar para tudo isso. Dormir mais, comer mais, beber mais. Hoje é dia de churrasco com farofa, umas geladas e céu azul.

Neste vai e vem, ficou de coadjuvante a comemoração dos casais. Ainda bem. É só uma data inventada para aquecer o mercado, mesmo.Vai e vem só na cama, para não passar em branco, porque depois é a bola que vai, e depois vem. Esperamos que vá mais do que venha, e que o Júlio César não precise trabalhar muito. Hoje, na verdade, só os jogadores querem trabalhar. O homem da relação já fez muito comprando umas flores. Ah, se a bola não entrar pro lado de lá, a euforia vai passar, a onda vai acabar, e não teremos nada mais o que comemorar. E daí, amanhã, o que vai ficar? Vai ficar tudo vermelho.