Blindaram a portaria do nosso prédio hoje - sim, porta e vidro blindados e tudo mais. Ao sair pelo portão nesta manhã rumo a uma corridinha no Burle Marx, me deparei, embasbacado, com o aviso colado na porta de chumbo negra: “blindagem – bla bla bla, motivos de segurança - yada yada, para se comunicar com os porteiros favor usar o interfone.” – Merda, agora que eu estava fazendo amizade com as meninas da portaria – pensei sozinho ao atravessar a gaiola de ferro que separa os condôminos do resto do aterrorizante mundo exterior. O empreendimento MaxHaus leva segurança a sério e nosso prédio tem uma série de precauções nesse sentido. Bom, né? - diriam os paranóicos. Pois eu digo que meleca. Agora, o pessoal virou uma voz mecanizada saindo de uma caixinha, também preta. – Estou presa aqui. Brincou a Tatiana, porteira do turno da manhã, respondendo a um sorriso de “Olá” que dei através do vidro fumê(preto, arghh). – Tira esse coque e faz um rabo-de-cavalo! Ela complementou num riso eufórico, como quem tenta espantar a tensão do ar. Pelo menos foi isso que eu entendi da breve conversa via interfone.

Em meio a mata densa das trilhas do Burle Marx(recomendo!), me veio o assunto deste post. Nada a ver com o começo do texto, ou tudo. Muita gente tem comentado sobre a hortinha que estamos fazendo aqui no apê – surpresos e felizes, como se fosse de outro mundo. Ah tá: desde quando plantar o que se come é uma novidade, é cool, é hipster? Provavelmente desde quando blindar portarias, carros e nossa própria cabeça virou necessidade – ou também, quando esquecemos o prazer, (e esta sim, necessidade, oras!) de saber lidar com a terra e com os nossos alimentos.

Nosso apê conta com uma varanda, nomeada providencialmente pelos MaxHausianos de Quintal. Ter este espaço ajudou na realização da horta, mas qualquer cantinho vale para montar a sua. Num belo dia embarcamos na missão de chegar ao CEAGESP cedinho para comprar mudas boas a preços bons. Para quem não conhece, este local é localizado quase no final da Marginal Pinheiros sentido Margina Tietê, lá na Vila Leopoldina. Por ali estão as famosas feiras hortifrutigranjeiras(?! : P ) aos sábados, domingos e quarta-feiras, e de flores às terças e sextas-feiras. É preciso chegar cedo para aproveitar produtos frescos - às 10 da manhã os vendedores já estão empacotando os caminhões. Compramos mudas de alecrim, alfaces, pimentas, tomilhos, salsinha, erva cidreira, boldo do chile e mais uma grande variedade de ervas para fazer temperos e chás. 15 mudas por r$ 8 reais - compramos 30, para preencher um cantinho do nosso quintal.

Uma Drogasil de mudança foi a fonte de materiais para a estrutura da nossa horta. Todo o piso do MaxHaus é feito de cimento queimado que, apesar de bonito e prático, é muito sensível e não pode ficar molhado se não a água infiltra e mancha tudo. De volta pro apê, aproveitamos um pallet que encontrei na antiga farmácia para fazer a base do nosso quintal. Depois de tratarmos e adaptarmos a base de madeira à nossa necessidade, escolhi o canto e forrei a estrutura com um cartaz de PVC que havia sido descartado na mudança da mesma loja. O segundo nível da horta também foi de material reaproveitado: tijolos de construção que sobraram da reforma de uma praça perto do prédio dos meus pais, que os pedreiros gentilmente cederam para mim quando contei planos para os mesmos. Em seguida compramos terra no Garden Center, sacos de lixo no mercado e, depois de um dia de trabalho intenso, a horta estava pronta. As plantinhas requerem atenção e cuidados diários, mas é um trabalho prazeroso e no fim das contas temos ingredientes frescos que estou usando para aprender a cozinhar. Acho que esse contato com a natureza também me faz sentir mais livre, fora desta realidade blindada, sabe?