Diariamente a sociedade bombardeia ideais de imagens da beleza feminina em programas de entretenimento, publicidade e desfiles de moda. Em algumas épocas eram as mulheres “rechonchudas” que esbanjavam a beleza e riqueza através dos seus quilinhos a mais; não muito tempo depois as magras extremas eram o ideal de muitas. Recentemente li em uma artigo na Veja SP que o ideal da vez são as musculosas, ou até bombadas, que passam metade dos seus dias na academia (salve aquelas já nascem com a propensão a ter músculos extras) e se nutrem com shakes e pozinhos que cortam o apetite e inflam a musculatura. Será tudo isto saudável para as mulheres? E para os homens o que isso influencia? E para a sociedade? Independente do ideal de beleza de cada mulher elas estão em constate pressão do ambiente e delas mesmas é claro. (Falo elas, mas não me excluo do pacote) O impacto deste tipo de informação a princípio pode não ser imediato ou aparente, mas o resultado, através de uma pesquisa feita pela Dove, em números, diz que dois por cento (choquei ao ler isto) das mulheres de 10 países se consideram bonitas. Pouco não?

Sempre é muito mais fácil elogiar e reconhecer as qualidades das mulheres à nossa volta. “Uau que cabelo lindo!”, “O corpo dela é incrível!”, “ Ah seu eu tivesse este abdomen…e esta bunda”, e por aí vai. Porque é tão difícil nos vermos desta forma? As mulheres, em geral, tem uma dificuldade enorme, e surpreendente, de definirem e interpretarem as suas belezas. Estudos mostraram que em média, apenas cinco por cento se sentem confortáveis descrevendo a si próprias como bonitas. Apenas nove por centro se acham atraentes; apenas treze por cento afirmam estarem muito satisfeitas. Quando falamos do poder de atração física, doze por centro estão satisfeitas com o poder de atração que elas tem, dezesete por cento estão muito satisfeitas com o seu poder de atração facial e treze por cento muito satisfetidas com o peso e a forma do seu corpo. Os mesmos números em outros países não passam de quarenta por centro de satisfação - mas o que isso influencia?

Recentemente (sim recentemente em relação ao tempo que isto vem corrompendo a nossa sociedade) marcas começaram a trabalhar esta questão através de anúncios e campanhas que mostram a mulher em sua beleza real, a mulher confiante, a mulher de beleza autêntica, a beleza presente no coração e na mente das mulheres. Projetos como The Nu Project fotografa as mulheres comuns em seu meio ambiente natural, com resultados lindos, poéticos e emocionantes. As imagens passam uma aproximação ao real, aos sentimentos delas, ao momento e aos pequenos detalhes.

Sempre foi fácil dizer às outras quando reclamaram de pequenos defeitos: “Mas você é linda…”. Até o dia que você para, um pouco de fora, e vê que faz isto todos os dias também - não é verdade? Quantas vezes não acordamos pela manhã, nos olhamos no espelho antes de tomar aquele banho para começar o dia e analisamos cada gordurinha fora do lugar, ou o cabelo que acordou como a juba do leão, ou a marca do pijama que deixou a pele vermelha. Inúmeros defeitos em apenas alguns segundos. Sim, eu faço isto também! Todas fazem de uma forma ou de outra! Sejam elas gordas, magras, redondas ou quadradas. Sempre temos alguma coisinha para reclamar. (Sim homens, nós sabemos disto.) E quando temos que tirar a roupa na frente de outros? Sejam eles de qualquer sexo, de qualquer profissão ou de qualquer grau de relacionamento. Estes medinhos e defeitos que vimos às sete horas da manhã voltam para a nossa mente quase que imediatamente.

Um dia destes, no meu período no exterior, ao realmente parar para pensar nisto comecei uma pesquisa intensa pela internet. Passando por comerciais, depoimentos, artigos e projetos desconhecidos, resolvi trabalhar um pouco mais em cima disto. Com uma oprtunidade em mostrar isso publicamente resolvi criar um projeto que de alguma forma pudesse trabalhar esta questão nas mulheres à minha volta e em mim mesma também. Um projeto que transcendesse a definição de beleza que se limita ao poder de atração física. Sobrepondo a personalidade de mulheres únicas, com a arte e a fotografia resolvi ver o quanto isto poderia influenciar a maneira de agir e de pensar. Assim surgiu o ensaio “de frente pro verso”, que retrata mulheres, de todas as idades, etnias e momentos de vida, e projeta suas personalidades através de arte e registros fotográficos. Sobre os corpos, uma intervenção artística com o intuito de enfatizar seus traços e características naturais; pinturas que retratam suas vontades, sonhos e jeitos. Linhas geométricas, orgânicas, duras ou leves são reflexo das pessoas que as recebem. O resultado apresenta duas fotos de cada com expressões e linguagem de corpo únicas.

Antes deste último domingo isto tudo era um ideal. Em parceria com o fotógrafo e amigo João Vecchi, e com a ajuda do Marcos, sempre essencial também, o projeto começou a tomar forma. No início achamos que teríamos relutâncias de diferentes origens e que seria difícil conseguir dez mulheres para fazerem parte disso. Em uma semana percebemos o potencial disto tudo, ao termos nossas caixas de email transboradas com mais de cinquenta e-mails de interessadas com seus motivos distintos. A prática começou na última sexta-feira de novembro no estúdio fotográfico do João, a Scarlae. Após uma longa conversa de objetivos mais burocráticos descemos para o estúdio para testarmos as tintas e luzes para o dia das fotos. A modelo? Eu mesma. Me pintei rapidamente com tintas brancas e pretas e lá fomos nós. Aquele sentimento de insegurança e medo reinava dentro de mim, ao mesmo tempo que eu tentava lutar contra eles e quebrar a barreira. Não foi fácil, mas preciso dizer que mais fácil do que eu imaginava. Acho que a maioria das 27 mulheres que vieram dois dias depois poderiam dizer o mesmo. O primeiro dia de fotos, neste domingo foi intenso. Intenso não somente de horas de trabalho, mas de sentimentos dúbios e quebra de barreiras. Tirar a blusa na frente de outras mulheres desconhecidas, ser tocada por um pincel e então seguir para uma sala ampla, com equipamentos grandes virados em sua direção, e um fotógrafo (mais tarde no dia eram dois) atrás de sua lente. O trajeto entre salas proporcionava um encontro com mais algumas pessoas e situações. Para algumas foi um trabalho pessoal mais difícil, para outras parecia natural, mas, de qualquer forma, todas as mulheres que ali apareceram, mesmo que a princípio só para olhar, acabaram se entregando. Muitas sentiram-se tão à vontade, ao quebrar a barreira inicial, que nem ligavam mais em passear pelo estúdio pintadas e semi nuas, trocando experiências momentâneas e de vida. Tudo parecia natural, e foi, até o final, quando eu me juntei ao último grupo também, repleta de mãos de tinta espalhadas pelo corpo.

Todas fizeram depoimentos, algumas antes e outras depois da participação. Ainda não tivemos tempo de passar por todas as fotos e videos, mas o resultado na certa foi surpreendente. No estúdio entraram meninas e senhoras tímidas, com receio do que as esperava e de lá, saíram mulheres. Mulheres confiantes, sorridentes e orgulhosas de suas tentativas e resultados. Obrigada a todas que fizeram e ainda farão parte deste caminho. Para mim, cada dia está sendo um aprendizado e uma segurança de que posso sair de casa todos os dias mais confiante.