Nós dependemos uns dos outros de maneiras e níveis diferentes. O ser humano, por aspectos evolutivos que agiram sobre a anatomia da espécie, é um dos animais mais dependentes de seus pais após o nascimento. Ao passo dos anos, ao se tornarem mais independentes em relação a locomoção, comunicação, alimentação e sobrevivência de modo geral, se tornam também mais dependentes em quesitos emocionais. Nossos relacionamentos com família, parceiros, amigos e colegas, são marcados por aspectos que definem o nosso ser, dia após dia, ao ponto que, existir apenas por existir, sem o adendo destes vínculos emocionais, se torna uma mera missão de sobrevivência, em detrimento de uma vida plena.

A curva evolutiva da seleção natural deu a cada animal capacidades diferentes de sobrevivência. Algumas espécies de tartarugas, por exemplo, nascem e correm pra se aventurar no mar, pra longe de sua mães, para nunca mais vê-las. As orcas, por outro lado, animais de inteligência emocional superior a humana, levam vidas centenárias ao lado de todos os membros de sua família, a ponto de cada núcleo familiar ter seu próprio dialeto. Na mesma linha, nós humanos somos seres dependentes. À medida em que a nossa espécie se tornou ereta em meio a milhares de anos de evolução, os recém-nascidos se tornaram cada vez mais subdesenvolvidos, devido a redução de espaço para o amadurecimento dentro do útero. Alguns cientistas e historiadores apontam que a cultura humana familiar pode ter surgido devido a esta dependência dos filhos para com os pais nos primeiros anos de vida após o nascimento. Com isso, o ser humano nasce fisiologicamente dependente e morre emocionalmente dependente de seus semelhantes.

Quando eu era garoto, tinha um ímpeto de independência exagerado. Nunca fui de exprimir meus sentimentos para ninguém, e só falava quando, segundo minha avó, tinha uma estilingada certeira para soltar, após horas de observação contemplativa. Meu pai conta que, no meu primeiro dia do maternal, momento doloroso e de choro exarcebado para a maioria das crianças, eu, seguindo o exemplo das tartarugas, corri para me aventurar na sala, e sequer olhei para trás. Quando eu tinha uns 7 anos de idade, me perdi de minha mãe numa unidade do colégio, e foram me encontrar horas depois, um quarteirão acima, dentro da sala de aula, na outra unidade do colégio, um pouco triste apenas porque estava sem a lancheira com minha merenda. Esta vontade de explorar o mundo por conta própria continua, mas aprendi, anos mais tarde, que eu precisava me abrir emocionalmente para viver as melhores experiências de vida.

É preciso emancipar-se emocionalmente para perceber que, não há problema nenhum em depender do próximo. Em 2005, vivi um ano intenso na Nova Zelândia e tenho esse momento como um marco de minha própria evolução. Ali eu aprendi às pressas, que precisava me abrir e me relacionar com desconhecidos, para tirar proveito de uma oportunidade de ter experiências inesquecíveis. Assim foi e, de lá pra cá, criei e cultivei inúmeros relacionamentos, afetivos, coloridos, profissionais e de todos os tipos, profundos ou não. São estes todos, junto com meus laços familiares, que me definem hoje, estando eles ativos ou dormentes.

Meus quase cinco anos com a Kalina são, da mesma forma, mais um esforço neste sentido. Apesar de tentarmos dividir todas as nossas funções e obrigações igualitariamente, dentro do apê, com nossas empresas, e nas experiências de nosso relacionamento , dependemos um do outro de formas e níveis diferentes. Às vezes um precisa de uma consultoria técnica, às vezes outro de apoio emocional, e às vezes um precisa de uma ajudinha financeira. Seja qual foi a maneira ou nível que você depende de alguém, no fim das contas, são estes momentos que te permitem viver uma vida feliz, e que lembramos anos depois com carinho e nostalgia.