Sardinha enlatada

O metro quadrado das praias do litoral paulistano e carioca estão num crescente boom imobiliário. Ao início das tão esperadas férias, as pessoas levantam cedo e animadas para pegar a estrada e…param. Duzentos quilômetros em dez horas, ninguém merece. Da intenção de colher os frutos de trabalho suado do ano inteiro, bebendo água de coco em baixo da sombra do coqueiro da praia enquanto as crianças brincam de castelinho de areia, nos transformamos todos em sardinhas enlatadas, disputando meio quadrado que dê para estender uma canga e que tenha, pelo menos, um pedaçinho de vista do mar salgado em meio ao mar de guarda-sóis.

Nós precisamos do contato com o oceano, Kalina e eu. Já nos acostumamos a ouvir as reclamações semanais de nossos amigos que raramente contam com nossas presenças nas festinhas de fim de semana: nós quase sempre fugimos para o mar. Não é falta de consideração não: a brisa salgada, a areia entre os dedos e as ondas do gigante azul são, para nós, infinitamente mais interessantes que a música estridente e os drinks cor de xixi pela madrugada. Melhor que as nossas fugas, só as nossas fugas em conjunto com outros amigos.

Só não nos convidem para ir pro nosso litoral durante o verão. É isso: adoramos uma balada durante o verão, mas só porquê todo mundo tem a mesma ideia brilhante de pegar uma prainha no verão, e, viramos sardinhas novamente. Vou contar um segredo só para vocês: praia no inverno é muito mais legal.

Para não quebrar a tradição das sete ondinhas e da mesma forma não quebrarmos a cara no trânsito, nossa escolha desse ano foi o litoral bahiano. No comando do vôo da Gol para Salvador, ao meio dia do dia de natal, estava o comandante Carvalho, um recorrente piloto que deveria ganhar prêmio de melhor funcionário da aviação brasileira, por seu profissionalismo e suas histórias de vida pelo alto-falante do avião durante os trajetos. O mesmo anunciou algumas vezes durante as duas horas de vôo, após o barulhinho da cabine – senhores, aproveitem a vista incrível dessa viagem memóravel, estamos chegando num dos mais bonitos litorais do mundo. Olhem pela janelinha, a costa bahiana não é uma beleza?

A Bahia continua linda - e suja. Praias exuberantes e marcos históricos como o Pelourinho ainda têm o seu charme, mas a discrepância social assola as ruas do estado. De qualquer forma, acho que as pessoas dali sabem algo que nós dos centros comerciais ainda não aprendemos. Levam a vida numa boa, num ritmo só deles e inconfundível. Só de lembrar, as palavras já começam assim, a sair de forma mais vagarosa, porquê sabe como é, quem é que tá com pressa, tá com pressa pra quê? E nessa toada, encontramos as praias, de areias extensas, ondas constantes, ventos refrescantes e, acreditem, vazias.