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Pra você é fácil?

pensar acordado, criar contexto

Regular kalina 1991

em algum momento de 1991

“Para você é fácil, porque tem talento!”

Desde o início do ano passado esta é a frase que mais ouço quando as pessoas se dirigem a mim e a minha mudança de hábitos e carreira. Mas já de início compartilho com vocês que não foi e não é tão fácil como pode parecer. Vamos ao início.

“O que você quer ser quando crescer?“ Lembro que ainda pequena respondia àquela pergunta de sempre: “Arquiteta!” Sem ter ideia o que isso realmente queria dizer. Chegou a hora de traçar a carreira ao sair da escola e, após algumas conversas com o meu pai, escolhi! Para os que não sabem, me formei em arquitetura há quase quatro anos atrás, um assunto que sempre me interessou e fascinou muito. O período de faculdade foi de grande aprendizado e novas descobertas nas mais variadas áreas que este tema envolve. Diferentes estágios, desde o início dos estudos, para tentar descobrir o que eu realmente gostaria de seguir. Projetos, novas propostas, concursos e prêmios. Tudo sempre fluiu bem e com sucesso. Mas eu estava sempre feliz em relação a isso? Hoje posso dizer que provavelmente não. Gostava. Sim, gostava. Mas não era a minha paixão.

Na segunda parte dos cinco longos anos de estudo comecei a levar para a sala de aula o que normalmente ficava reservado para o meu tempo sozinha em casa: o desenho. Durante as aulas teóricas de Planejamento Urbano, Topografia, Teoria da Arte ou Resistência dos Materiais, desenhava para que as longas horas passassem mais rápido. Com o tempo descobri que isto me ajudava ainda mais a ouvir e prestar atenção no que estava sendo falado lá na frente. Uma tática muito mais eficiente do que olhar para o professor e fingir estar interessada. Fui criando e crescendo e no tempo livre a vontade de desenhar era ainda maior. Com aprovação dos meus pais comecei a fazer testes na parede do meu quarto. Atrás da porta, caso o resultado não fosse tão bom, não atrapalharia ninguém. Sim, tinha medo e era quadrada!

Durante o ano de 2011 trabalhei em um escritório Suiço durante um ano. O final, para mim e outros que trabalhavam na empresa, não foi tão feliz e fez com que minhas vontades começassem a ser questionadas. Neste momento já havia feito alguns trabalhos de pinturas e ilustrações para os mais próximos. Apenas como hobby. Lembro bem de uma conversa no bar com o meu futuro sócio em meados de Novembro do mesmo ano onde ele me perguntava qual a minha vontade para o futuro. Junto com o Marcos começamos a filosofar sobre a multidisciplinaridade, sobre como seria possível juntar design, com arte e com arquitetura. Tudo parecia muito distante e a pergunta final foi: “Legal vocês sonharem com tudo isso, mas como vão ganhar dinheiro?”

Deixei a filosofia de lado e abri o meu escritório, de arquitetura, no ano seguinte. Tudo parecia ir bem, até que a cidade começou a mostrar que não era um parquinho tão divertido. Os projetos não eram tão fáceis de conseguir e o dinheiro era batalhado. A princípio me sentia feliz e realizada sendo dona do próprio nariz e lutando cada dia por dias melhores - mas o meu corpo não me dizia o mesmo. Indisposição, mau-humor e brigas com todos mais próximos de mim. Um sorriso falso me acompanhava todos os dias desde o momento que saia da cama. Em seguida dores de cabeça intermináveis, dores no corpo, falta de sono, falta de vontade de me exercitar, ansiedades incontroláveis, abstinência sexual e a falta de vontade de socializar com qualquer pessoa… Até que um dia dores na área do abdômen que me deixavam na cama por dias e ligações para o meu sócio do tipo: ”Não estou me sentindo bem e hoje vou trabalhar de casa” (ao invés de nossa mesa em um co-working) tornaram-se comuns. Visita a inúmeros médicos e laboratórios já faziam parte de todas as minhas semanas. Até que um dia fui diagnosticada com uma inflamação no intestino, causada por stress emocional. O corpo gritava! E eu continuava me enganando. (este foi o gatilho para mais tarde eu descobrir que sou intolerante a glúten)

A relação com os meus pais ia mal. Amigos? Nem sabiam que eu existia mais. A minha relação com o Marcos piorava a cada dia. Até que um dia ele falou: “Eu estou aqui, tentando te ajudar, esperando você sair dessa, mas não sei quanto tempo aguento, e não posso garantir.” Resolvi então prestar mais atenção. Fiz uma visita à Sandra, uma pessoa querida, que não é médica, mas sim química e através de diálogos e análises dos fluídos e metais do corpo ajuda pessoas a curarem doenças graves e não tão graves. Ela me incentivou indiretamente ao me contratar para fazer o seu novo cartão de visita e logomarca, e me encaminhou para um analista. Sim! Eu fiz terapia e outros tratamentos de ervas, acupuntura e tudo que você possa imaginar (e o que eu imaginava que nunca faria, afinal estava feliz!). A Sandra hoje diz: “Você era uma flor no deserto gritando por água!”

Muitas conversas com o sócio, que logo deixou de ser, com o Marcos e com os meus pais foram abrindo os meus olhos e coração. O fluxo de trabalho era maior na arte e design do que na arquitetura. O que faltava para eu assumir que eu deveria seguir outro caminho? Falar em voz alta: eu quero mudar! Foi fácil? Não! Muito longe disso! Tenho um talento? Talvez… mas acredito, e aconselho, que a evolução vem com a prática e que não basta ter um talento. A cada dia de trabalho, de leitura, de pesquisa, noto o meu crescimento profissional e pessoal. Sorrio ao lembrar e agradeço todos os dias àqueles que acreditaram. Dar certo em uma mudança profissional vai muito além de um talento - e sim da força de assumir aquilo que te faz feliz, aprender a ouvir o que o seu coração e corpo dizem, ter autonomia, responsabilidade, disciplina, estar sempre atento ao mercado e às tendências, programar, estudar, ser humilde e ouvir o que os outros tem a dizer. Toda manhã acordo sem saber como será o dia, como será o mês, como será o próximo trabalho, como vou pagar as contas. Isto é fácil? Não! Mas é o que me faz sorrir todas as noites antes de dormir.

Regular woman bird 2

evoluindo a cada dia

tudo que brilha já foi fedorento

pensar acordado, explorar sem parar

Regular opening lulu app from elle

flores onde menos esperamos / foto: elle.be

A nossa evolução como espécie anda de mãos dadas à quebra de paradigmas, mas sair do senso comum quase sempre gera grandes controvérsias. Atualmente, o assunto mais falado nas rodas de mulheres e de homens é um aplicativo de uso exclusivo do universo feminino, usado basicamente para atribuir notas qualificativas a exemplares do sexo masculino. Ontem nós baixamos o app para testá-lo. Kalina achou o Lulu “nojento”: por ser vazio, sem escrúpulos e carente de conteúdo construtivo e por estes fatores, não entendeu muito a minha diversão ao ler minhas próprias avaliações no celular dela. Essa história, contudo, vai muito além do entretenimento barato - considero o app uma empreitada visionária e digna de atenção por nós, meras engrenagens do sistema evolutivo humano.

Tudo que brilha e é adorado hoje, tem boas chances de ter sido fedorento e odiado no passado. Quando Steve Wozniack criou uma máquina que era capaz de burlar as tarifas telefônicas e Jobs viu potencial de venda no mercado negro para o pequeno aparelho, surgiu o embrião da reverenciada multinacional Apple. Quando Marck Zuckerberg viu diante de seus olhos o alcance de um aplicativozinho que ele criou que objetificava meninas de sua faculdade ao compará-las lado a lado, percebeu o potencial social da internet e criou o Facebook, rede social mais utilizada em todo o mundo. Não é preciso ir longe para entender que se algo é novo, causa reboliço e tem grande aderência popular, há grandes chances de, por mais sujo e antiético que seja aquilo naquele momento, se tornar parte essencial de nossas vidas num futuro próximo.

O termo “nojento” cabe bem ao Lulu: ele fede e cheira – é equiparável ao noticiário de crimes horrendos do Jornal Nacional de todas as noites. O aplicativo foi criado por Alexandra Chong, uma advogada com diploma britânico, e lançado nos EUA em fevereiro desse ano – em abril, 200 mil homens já haviam sido avaliados; em novembro, uma matéria do The New Tork Times trouxe atenção mundial à empresa que dizia já possuir mais de um milhão de usuários e mais de 25 milhões de doláres de investidores. Em miúdos, a rede potencializa a conversa cotidianda da mulherada sobre homens e atribui um caráter público às opiniões alheias sobre características, modos e performance de um ex-namorado, ficante ou pretendente – claro que muitos homens estão com comichão por causa disso. Ter o seu perfil escancarado para o púbico com base numa opinião individual é uma forma tendenciosa de representar alguém. Contudo, pelo mesmo motivo que as pessoas não deixam de sair às ruas por causa da mídia sensacionalista, também não utilizarão as opiniões do Lulu para decidir o seu futuro amoroso, certo?

Chong, CEO e fundadora do aplicativo, enxerga o sistema como uma boa maneira de ajudar as mulheres a escolher bons partidos, bem como incentivar os homens a se portarem de forma mais respeitosa com suas parceiras: ela acredita cegamente que o Lulu tem o poder pra mudar a vida das pessoas de forma positiva. Para quem não sabe, este é exatamente o ramo e ideologia da AEROGAMI, minha empresa de serviços: criação de produtos na web que visam melhorar a vida cotidiana. Há muitos meses estamos trabalhando numa ferramenta de feedback empresarial enquanto cultivo um ideal (conhecido por poucos, até agora) de criar uma plataforma de feedback pessoal. Eu acredito que relacionamentos mais transparentes trariam benefícios ainda imensuráveis para um indivíduo. Talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto de ler as minhas #hashtags taxativas e sem escrúpulos no Lulu.

Regular lulu

o apelo do Lulu

Regular alexandra chong ii

Alexandra Chong: CEO e Fundadora - aplicativo já tem status de empresa de grande porte.

pira na inspira

pensar acordado

Regular a aurora do homem

"The Dawn of Man" em "2001: A Space Odyssey"

Desde quando a gente é gente que a gente começou a criar coisas. Pensando bem, provavelmente a gente só virou gente quando a gente criou a primeira coisa. Cena nenhuma ilustra esta passagem melhor que “A aurora do Homem”, nos primeiros 15 minutos do filme de Stanley Kubrick de 1968, “2001: Uma Odisséia no Espaço”. Seja você da turma do creacionismo ou do grupo do evolucionismo, atirou a primeira pedra quem ligou os primeiros neurônios, quem fez uma cagada que deu certo, quem cruzou a fronteira do desconhecido, quem teve a primeira ideia – tanto faz se foi comer uma maçã ou acertar o companheiro com um pedaço de pau. Estes foram os verdadeiros pioneiros. De lá pra cá, somos todos falsificadores confessos de um conceito que é tão velho quanto a primeira avó da sua árvore genealógica: criar algo para alcançar um objetivo. Se preferir, pra amenizar, somos inspirados - dia após dia, de lugar em lugar, ideias sobre ideias. Kalina e eu não somos diferentes: a gente pira na inspiração que o nosso entorno oferece.

O olhar analítico percebe um emaranhado de descobertas em todos os momentos. O espaço sideral é todo composto por uma matéria densa, mas invisível; nosso planeta não passa de um caldeirão com os dias contados. Tecnicamente o pôr-do-sol é uma ilusão; é a lua a maior responsável pela mudança de marés. Santos Dumont construiu 14 infláveis antes de criar um avião com asas; Thomas Edison construiu mil lâmpadas antes do projeto funcionar. A Apple começou com alguns amigos conectando circuitos simples na garagem dos pais de Jobs; o império Walt Disney World só engatou após Walt falir duas empresas e criar um simples sketch de um ratinho. Nietzsche dizia que quanto mais do alto, mais nossos problemas mundanos se tornam insignificantes. Vamos por isso em prática, esquecer o nhê nhê nhê do dia a dia e descobrir as maravilhas que acontecem por aí.

Regular edison rectangle

Edison contemplando sua criação

Regular 14 bis hibrido

14-bis, o avião híbrido de Santos Dumont alçando voo.

"The Dawn of Man" em "2001: A Space Odyssey"

Ô lá em casa!

estar concreto

Regular pop vila madalena

POP da Idea! Zarvos na Vila Madalena = desejo de consumo

Há uma linha tênue entre o desejo e a inveja. “Ô lá em casa!” – exclama a tia que vende chiclete na esquina de uma rua movimentada de São Paulo, ao ver um bofe de seu agrado, passando engomado acompanhado de uma loirassa no passageiro de sua BMW branquinha, último modelo das vitrines. – Ei tia, o cara, o carro ou a loira? – A pergunta se dissipa pelo ar.

Cada um de nós aspira coisas diferentes. O desejo de posse está encrustado em nossa cultura capitalista: é a graxa da engrenagem que move a evolução dessa máquina – e que sentimento gosmento! Produtos, pessoas, sentimentos e vidas inteiras. Quando não temos, queremos; quando temos não usamos; quando não podemos, invejamos. Ah! Tudo bem, é inveja branca, é inveja boa – bobagem. “A inveja mata um, tem muita gente ruim.” – disse a mãe de um certo rimador paulistano. Claro que tudo depende do momento, situação financeira e entorno de cada indivíduo. Kalina e eu estamos, no momento, buscando um apartamento para morarmos juntos e experimentando os dois lados dessa moeda da posse – ou melhor, nesse caso, aluguel.

Duplex dois quartos com duas suítes, banheira, lareira, cozinha toda equipada com eletrodomésticos branquinhos de última geração. Porcelanato 8x8 aqui, piso quente ali, cama triple king size, poltronas assinadas, tvês estilo cinema que cospe água, sistema de som de última geração. Imóvel no coração da Vila Madalena, vista indescritível e permanente, lazer completo - não, não é o local que vamos morar, mas bem que poderia ser. Qualquer um que já passou por esse momento sabe que as tentações são grandes, mas os custos também. É preciso registrar, pesar os prós e contras e escolher o que melhor se encaixa em seu estilo e orçamento.

Para nós a vontade de possuir está ligada a vontade de crescer. Pode ser que o que almejamos não esteja ainda ao nosso alcance, mas que maravilhas faz esta vontade de evoluir. Estamos economizando, planejando e nos organizando para escolher e poder sustentar o nosso teto pelos próximos poucos anos. A busca pelo ap continua. A cidade é grande e intimidante, as vontades e necessidades diferentes, mas vamos encontrar um cantinho pra viver.

ilustrações por kaju.ink
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