Assim que nos mudamos para o apê, Kalina e eu experimentamos uma confluência de sentimentos. Tudo era diferente e inusitado: o local, a vista, os vizinhos, cheiros, sons e energias. O processo de adaptação foi - e está sendo, uma aprazível caixinha de surpresas. Lembro-me quando deitamos no nosso recém chegado colchão no primeiro dia – a tão esperada “lua de mel” dessa nova fase e, de tão excitados, não conseguíamos nem dormir: não vai achando que foi sexo, pois na verdade deu grilo. Sim, grilos! Há uma mata densa, um braço verde conectado ao Parque Burle Marx que circunda nosso edifício. Como moramos no 3º andar, pairamos diretamente sobre a copa destas árvores e a noite escutamos uma sinfonia de grilos, o ruído constante de Marginal ao longe (podem achar que somos loucos, mas pra nós este som parece o mar) e uma brisa que dava a sensação que estávamos dormindo na praia – ficamos lá, extasiados, bobos alegres rindo a toa e nada do sono chegar. De fato, concordamos alguns dias depois, a experiência toda de mudança estava com uma cara de férias, como se estivéssemos por aqui para aproveitar – e por pouco tempo.

Tudo que é novo, encanta, assusta, atrai - mas a euforia vem de mãos dadas com uma série de responsabilidades. É assim com novos projetos profissionais ou de vida, é assim com filhos ou animais de estimação, é assim com namoros ou amizades recentes e é assim com mudanças como a que estamos passando. Aquele êxtase inicial está, lentamente, começando a se dissipar e agora é hora de encontrar o equilíbrio entre os afazeres de casa, as responsabilidades das empresas, o social com amigos/família, o tempo para si e a entrega entre nós dois (a ordem dos fatores não altera o produto). Isto é – estou percebendo, mais ou menos como encontrar a constância do amor, após a faísca da paixão – nada simples.

Nosso dia começa cedo e acaba tarde. Não digo isso como uma forma de vangloriação, mas como uma amostra fiel da carga horária que o estilo de vida que escolhemos acarreta - nós damos extrema importância aos pequenos detalhes. Ontem, por exemplo, o café da manhã me consumiu quase duas horas de preparação, pois estava me sentindo inspirado na cozinha. Quando sentei para trabalhar às 9:00, (depois de cuidar da horta), estava pronto para encarar os códigos complicados do projeto que estamos trabalhando no momento em minha empresa. Depois veio um técnico cuidar do aquecedor do nosso chuveiro, depois veio o lanchinho pré-almoço, depois saí para explorar o mato que comentei no começo do texto (onde, a propósito, encontrei uma tigela muito antiga abandonada no meio das árvores – se o dono não se manifestar logo o recipiente vai virar um vaso pra alguma planta da hortinha : P) e a corrida pelo Burle Marx. Quando voltei, preparamos o almoço juntos e quando sentamos para comer já eram 4 horas da tarde. Após o almoço voltamos a trabalhar, depois jantar na casa dos pais da Kalina e quando voltamos para o apê, sentei para escrever este texto que você está lendo. Quando terminei, o ontem já era hoje. Hoje, tudo novamente como ontem – os fatores são semelhantes. A ordem não.

Os dias estão passando rápido e aos poucos o nosso apê está tomando forma. Nossos dias são assim, intensos mas prazerosos, confusos mas organizados. A euforia da (aparente) férias está dando lugar a um carinho por cada detalhe que estamos construíndo juntos. Nosso cantinho começa a parecer um lar e a ficha começa a cair de que este é, de fato, nosso lugar. (pelo menos por enquanto.)