Ontem pela manhã, Valmir, o marceneiro, veio entregar e montar o móvel que nós desenhamos e ele construiu, para nossa area de serviço/quintal/sacada. (não só de caçambas se monta um apê funcional). Enquanto ele fazia o trabalho muito-bem-feito dele, com a ajuda de seu irmão Vladimir, parou um momento, lá pelas tantas, quase hora do almoço, para tomar um pouco da nossa água do filtro de barro, no nosso copo de aço inox. Observando o apê com mesa, computadores, pinturas e produtos espalhados pelos cantos e nós, em nossos trajes confortáveis, ele soltou:

  • Vocês trabalham em casa…os dois?

Era clara a expressão de surpresa na cara dele. Diante da resposta afirmativa e, uma breve explicação de nossas areas de atuação, Valmir deu o último gole na sua água ainda fresca, e voltou com um sorriso no rosto para os seus afazeres. Depois, pude ouvir aqui do escritório-sala, enquanto ele comentava com Vladimir como devia ser bom fazer isso, “que eles podem fazer”.

Fazer de sua residência uma extensão de seu tabalho, não é um privlégio, é uma consquista. E é também uma capacidade que acarreta grandes mudanças, já dizia a mãezinha de Peter, o homem-aranha:

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.”

Nessa história toda, uma coisa é fato: Kalina e eu só “podemos” hoje, porque quisemos, em algum momento no passado. E agora, nós só conseguimos nos sustentar, podendo escolher se vamos ou não, sair do apê para trabalhar, pois cultivamos esse desejo diariamente - mas não alcançamos esse estágio da noite para o dia. Já fazem alguns anos que nós decidimos, cada um em seu momento, largar tudo que fazíamos, pegar o melhor desses mundos, e desenvolver nosso próprio cotidiano remunerado.

A contramão da carteira assinada e o salário fixo no fim do mês tem suas dificuldades, e suas alegrias. Poder escolher quando, e de onde trabalhar, ter tempo para cuidar da saúde e da alma, sentir a tranquilidade necessária para criar coisas novas, conseguir se relacionar com familiares e amigos:

nós não enxergamos, nenhuma outra maneira de viver.

Na mesma linha, temos grandes responsabilidades e trabalhamos duro para manter esse estilo de vida que é indispensável para nós. Nós somos os nossos chefes, empregados, administradores, contadores e criadores. Nós trabalhamos de casa, na rua, no cartório e na praia. Trajados de moletom e camiseta - ou não - o contrafluxo nos serve bem, e vamos continuar a lutar por isso.