Este final de semana, em uma conversa entre amigos, após encerrarmos as comemorações do jogo do brasil contra o chile, um amigo de família fez um breve discurso. John agradeceu a receptividade de todos no condomínio e citou uma história que o Filipe compartilhou com ele mais cedo, no mar, entre ondas. John sentia-se orgulho de ouvir que o Filipe batalhou quando era jovem. Quando ainda morava em Portugal seus pais o enviaram para um intercâmbio na Itália. Administrou mal o seu dinheiro, e as economias que deveriam ter durado seis meses, acabaram nos três primeiros. Para seguir seus estudos e vontades começou a cantar em bares. Filipe retrucou o discurso e disse o quanto gostou do momento que John e seu filho Jonas tiveram no mar. Um momento raro hoje em dia e que deve ser valorizado. Pai e filho trocando histórias, dicas e conselhos, enquanto surfavam juntos. Citou que com seus filhos, que moram ainda em Portugal, preza os momentos à mesa. Todos devem parar aquilo que estão fazendo para o momento da refeição. Disse como vem observando que as famílias tem mais e mais dificuldades para juntar seus filhos em pequenos momentos como estes e que fazem uma grande diferença.

Todos ali presentes pararam por um instante para pensar em suas próprias experiências familiares. Acho que todos já observaram como as crianças são isoladas em um mundo eletrônico. Os brinquedos falam e piscam luzes e exigem que a criança aperte e escolha. Parece que os bebês já nascem sabendo usar uma tela touch e já dançam ao ritmo da Galinha Pintadinha. Os pais usam isto a seu favor. Para momentos de paz e silêncio ligam a TV e o Ipad. Em alguns casos acho que pode ser útil e deve ser usado a favor dos pais, mas parece que a maioria aproveita disto em grande parte do crescimento das crianças, fase na qual a presença dos pais é importante. As crianças criam o vício que a longo prazo não pode ser saudável para os relacionamentos em geral.

Em casa, cada filha (somos três mulheres) tinha aquilo com que se identificava mais com minha mãe e pai. Havia atividades exclusivas com a minha mãe, quando ainda pequenas, como aprendizados na cozinha. Cozinhávamos todas juntas receitas suíças para eventos festivos, brigadeiros para os próprios aniversários, receitas salgadas quando dava vontade de tentar algo diferente. Tínhamos um livro de receitas com imagens que adorávamos. Com o meu pai eram os assuntos mais ligados a esportes, música e mais tarde questões financeiras. Ambos sempre incentivavam o tempo ao ar livre e os brinquedos e brincadeiras que exigiam certa criatividade e atividade. Refeições eram sentadas e, sempre que possível todos juntos no café da manhã e jantar. Televisão durante a semana era proibido e depois evitado por conta própria. Viagens eram uma forma de unir e divertir a família. Viagens para outros países, finais de semana e até mesmo um bate e volta para a praia às 5 da manhã. Hoje vejo que estes momentos, fora de casa, eram os que mais motivavam e uniam a minha família. Caminhadas, tirolezas, escaladas, o surfe, cafés da manhã, almoços e jantares. Ainda hoje, quando cada filha está em um canto do mundo é isto que nos mantém ativos com preparativos e economias durante todo o ano e nos une ao final. A família vai crescendo, com maridos e namorados, mas eles entraram na conta também e fazem parte do movimento.

Eu escolhi ficar no Brasil depois de formada (por enquanto pelo menos) e usufruo destes momentos ainda aos finais de semana. Idas à praia são repletos de pequenos momentos em conjunto. Na sexta a noite, quando não vamos todos em um carro (o Marcos agregado ao barco e amigos muitas vezes também), começamos com um jantar no terraço à luz de velas e vinho. O final de semana começa quando o meu pai desce do seu banho e diz: “Bom, o que vamos tomar?” (Sucos, água, vinho ou caipirinha normalmente são as opções.) No dia seguinte quase todos ao mar. No surf, entre ondas acontecem conversas e troca de dicas: “desceu bem a onda, mas depois do cutback volta pra espuma que a onda está sem força.” Na praia caminhadas com a minha mãe atualizamos os acontecimentos da semana. A preparação do almoço acontece em conjunto. O que vamos comer? (e beber?) Cada um se movimenta naquilo que pode e ao final sentamos todos juntos para mais uma refeição. O mesmo se repete no domingo e ao final do dia, um pouco antes de nos despedirmos a pergunta: “quais os planos para o final de semana que vem?”

Família perfeita? Sem problemas e dores de cabeça? Longe disto, mas pequenos momentos fazem a diferença e nos mantém próximos aos meus pais ainda hoje, trocando informações, experiências, desabafando, pedindo conselhos, ajudando, discutindo e sorrindo. Todos sabemos que isto nos une então fazemos de tudo para eles aconteçam. Os amigos sabem que não é algo que se encontra em todo lugar, compartilham a alegria e como meus pais brincam: “vamos adotando filhos aos finais de semana! (mesmo que já todos mais velhos).”