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ele abaixa a tampa

pensar acordado

Regular eu evc low

eu e você. você e eu. "casados"

Em todos os encontros de amigos e família, desde que nos mudamos juntos para o apê, constantemente ouvimos perguntas do tipo: Como vai a vida de “casados”? Já se irritaram com as manias um do outro? Quando vão casar? Seguindo o conselho de uma amiga, a primeira resposta que damos é: Já estamos casados (fazendo o movimento de telhado de casa com as duas mãos sobre a cabeça)! A segunda é: até que não nos irritamos tanto assim com manias. Os dois tem manias de organização e limpeza, o que deixa o apartamento (na maioria das vezes) arrumado. As pessoas logo mudam de assunto.

Com amigos que compartilham do mesmo pensamento frequentemente discutimos tais temas. Existe uma questão tradicionalista que ainda reina na nossa cultura. Para duas pessoas estarem juntas elas devem se casar, na igreja, no cartório e toda aquela festa bombástica para um grupo enorme de pessoas com doces de todos os tipos e para todos os gostos. Nada contra isto claro! (Aliás nos divertimos sempre nestas ocasiões inesquecíveis e apreciamos a boa companhia, comida e música.) Apenas pensamos um pouco diferente. O casar e o se irritar com manias não é tão necessário. Para nós, o fato de estarmos juntos, sob o mesmo teto, compartilhando tudo é válido da mesma forma. A decisão de morar juntos veio acompanhada de conversas sobre o “querer estar juntos”, o “compartilhar” momentos , se ajudar, se entender e claro, as divisões financeiras. O “para sempre”, ao nosso ver, está muito longe e preferimos não planejar tanto o futuro.

Cada casal tem as suas dificuldades, brincadeiras e acordos. Assim como qualquer união, a nossa também não é livre de pequenas manias e conversas mais sérias. Há algum tempo estivemos em um jantar de aniversário, e um amigo nos perguntou, depois da clássica pergunta de casamento: Kalina, você não fica brava quando o Marcos deixa a tampa da privada levantada? E Marcos, não te irrita o fato de a Kalina soltar cabelo pela casa toda? Nós dois rimos e respondemos quase que simultaneamente; Eu: O Marcos não deixa a tampa levantada. Ele: Acho que solto mais cabelo que a Kalina. O amigo ficou um pouco sem jeito e falou: Apenas acho que todos os casais tem manias e coisas que irritam um ao outro. Rimos novamente: Acho que não temos tanta coisa assim… Ele ainda buscou alguns exemplos que rimos ao não se aplicarem a nós e logo mudamos de assunto.

Logo após a mudança tivemos mais conversas para nos acertarmos às rotinas um do outro. Aos poucos os dois foram se encontrando e se ajustando ao realmente dividir o espaço. As tarefas foram se dividindo quase que automaticamente. Quando um cozinha o outro lava a louça. O Marcos cuida das plantas e da horta. Eu lavo as roupas e dobro quando secas. Limpamos o apê juntos. O Marcos a cozinha e eu o banheiro. Quando um está passando por uma semana puxada no trabalho, o outro tenta aliviar ao assumir mais responsabilidades. O mercado é sempre em conjunto, mas quase que naturalmente cada um vai se dirigindo para uma ala e ficando responsável por certos mantimentos. Ambos tem as suas próprias empresas, ambos precisam trabalhar cargas de horas maiores do que o normal, portanto fizemos um acordo, mesmo que não verbal, que ambos dedicarão tempo ao apê, seja através da divisão de tarefas, seja no companheirismo de fazer uma ida ao mercado ser algo divertido em uma manhã de quarta-feira. Na maioria das vezes as coisas se ajeitam e fluem naturalmente.

Não somos perfeitos e o nosso relacionamento também não é. (Que bom! Imaginem o quão entediante seria.) Existem desentendimentos, vontades de momentos a sós, conversas sobre o fazer ou deixar de fazer, sobre atitudes, atrasos sem iguais, acusações, cobranças, comentários atravessados e a tpm – sim, às vezes ela também fica entre nós. Também não somos perfeitos um para o outro. Somos bem diferentes nos mais variados níveis, mas acho que, ao final do dia, dê alguma forma, estamos a caminho de construir algo especial dentro de uma rotina equilibrada. E a cada final de dia, ao olhar para ele compenetrado com seus projetos – mesmo que estes tirem o meu sono de vez em quando, quando ele se deita pelas horas da madrugada – sorrio. Hoje, neste momento, estou feliz, e nada mais importa.

dia a dia

pensar acordado

Regular 2014 02 05 06.22.37

vista da sala, a copa das árvores da mata que nos rodeia, e a Marginal ao fundo.

Assim que nos mudamos para o apê, Kalina e eu experimentamos uma confluência de sentimentos. Tudo era diferente e inusitado: o local, a vista, os vizinhos, cheiros, sons e energias. O processo de adaptação foi - e está sendo, uma aprazível caixinha de surpresas. Lembro-me quando deitamos no nosso recém chegado colchão no primeiro dia – a tão esperada “lua de mel” dessa nova fase e, de tão excitados, não conseguíamos nem dormir: não vai achando que foi sexo, pois na verdade deu grilo. Sim, grilos! Há uma mata densa, um braço verde conectado ao Parque Burle Marx que circunda nosso edifício. Como moramos no 3º andar, pairamos diretamente sobre a copa destas árvores e a noite escutamos uma sinfonia de grilos, o ruído constante de Marginal ao longe (podem achar que somos loucos, mas pra nós este som parece o mar) e uma brisa que dava a sensação que estávamos dormindo na praia – ficamos lá, extasiados, bobos alegres rindo a toa e nada do sono chegar. De fato, concordamos alguns dias depois, a experiência toda de mudança estava com uma cara de férias, como se estivéssemos por aqui para aproveitar – e por pouco tempo.

Tudo que é novo, encanta, assusta, atrai - mas a euforia vem de mãos dadas com uma série de responsabilidades. É assim com novos projetos profissionais ou de vida, é assim com filhos ou animais de estimação, é assim com namoros ou amizades recentes e é assim com mudanças como a que estamos passando. Aquele êxtase inicial está, lentamente, começando a se dissipar e agora é hora de encontrar o equilíbrio entre os afazeres de casa, as responsabilidades das empresas, o social com amigos/família, o tempo para si e a entrega entre nós dois (a ordem dos fatores não altera o produto). Isto é – estou percebendo, mais ou menos como encontrar a constância do amor, após a faísca da paixão – nada simples.

Nosso dia começa cedo e acaba tarde. Não digo isso como uma forma de vangloriação, mas como uma amostra fiel da carga horária que o estilo de vida que escolhemos acarreta - nós damos extrema importância aos pequenos detalhes. Ontem, por exemplo, o café da manhã me consumiu quase duas horas de preparação, pois estava me sentindo inspirado na cozinha. Quando sentei para trabalhar às 9:00, (depois de cuidar da horta), estava pronto para encarar os códigos complicados do projeto que estamos trabalhando no momento em minha empresa. Depois veio um técnico cuidar do aquecedor do nosso chuveiro, depois veio o lanchinho pré-almoço, depois saí para explorar o mato que comentei no começo do texto (onde, a propósito, encontrei uma tigela muito antiga abandonada no meio das árvores – se o dono não se manifestar logo o recipiente vai virar um vaso pra alguma planta da hortinha : P) e a corrida pelo Burle Marx. Quando voltei, preparamos o almoço juntos e quando sentamos para comer já eram 4 horas da tarde. Após o almoço voltamos a trabalhar, depois jantar na casa dos pais da Kalina e quando voltamos para o apê, sentei para escrever este texto que você está lendo. Quando terminei, o ontem já era hoje. Hoje, tudo novamente como ontem – os fatores são semelhantes. A ordem não.

Os dias estão passando rápido e aos poucos o nosso apê está tomando forma. Nossos dias são assim, intensos mas prazerosos, confusos mas organizados. A euforia da (aparente) férias está dando lugar a um carinho por cada detalhe que estamos construíndo juntos. Nosso cantinho começa a parecer um lar e a ficha começa a cair de que este é, de fato, nosso lugar. (pelo menos por enquanto.)

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suco pro café da manhã com Erva Cidreira da horta

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horta

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exercício todo dia

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estação de trabalho

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o mato, nosso vizinho.

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...e o que saiu de lá. : P

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