Os grandes centros urbanos sofrem com o descarte inadequado e a reciclagem de materiais, orgânicos ou não. Só na cidade de São Paulo são 18 mil toneladas diárias de lixo que vão para os aterros sanitários e acabam por poluir o solo, os lençóis freáticos e atmosfera. Por mais que sejam implementados programas de reciclagem centralizados, o governo não consegue dar conta de descartar todos os resíduos da forma correta. A solução não é culpar os governantes, mas fazer a sua parte. Aqui no apê já reciclamos todos os resíduos sólidos, reaproveitamos materiais descartados para fazer produtos e mobiliário, e recentemente decidimos embarcar na compostagem doméstica, para reciclar também os nossos resíduos orgânicos. A ideia é descentralizar os processos e tomar conta do próprio lixo.

A compostagem é um processo biológico em que microorganismos transformam a matéria orgânica em composto, adubo natural semelhante ao solo.

Já faz uns 3 meses que implementamos a compostagem doméstica aqui no apê, e agora que já temos experiência suficiente com o processo, é hora de compartilhar nosso ponto de vista sobre este esforço ecológico em prol da sustentabilidade urbana. Lá pelo meio deste ano nós nos inscrevemos no programa Composta São Paulo, idealizado pela Morada da Floresta e realizado pelos mesmos em conjunto com a prefeitura de SP. É o primeiro programa do tipo na nossa cidade, e contemplou 2.000 composteiras domésticas que foram entregues a comunidades, escolas e famílias. Foram mais de 10.000 inscritos interessados em ganhar uma composteira, inclusive nós, do comTijolo, e tivemos a felicidade de sermos escolhidos para participar do projeto.

O primeiro Composta São Paulo merece inúmeros elogios. Apesar de ser uma iniciativca pioneira, o programa foi muito bem estruturado e sua organização oferece, além de todo o material necessário para realizar a compostagem doméstica, website, grupos virtuais, oficinas presenciais e cartilhas impressas com todas as informações possíveis para embarcar nesta empreitada. Todos muito bem pensados e executados. Digo empreitada pois, de fato, existe uma curva de aprendizado considerável para exercer e dominar as técnicas para manter uma composteira saudável dentro do seu domícilio.

A compostagem com minhocas, também conhecida como vermicompostagem, é o processo de transformar restos de alimentos e demais resíduos orgânicos em adubo com o auxílio das minhocas.

Três engradados empilhados, com pequenos furos por suas extensões para permitir a ventilação e deslocamento de minhocas, uma tampa, uma torneirinha e um ancinho, são todos os produtos industriais necessários para a estrutura física da composteira. Um pacote de minhocas e substrato, um pacote com composto sólido e serragem, e um pacote de serragem, são os produtos naturais que vão fazer a engrenagem orgânica funcionar. Tudo isso foi fornecido para nós, durante a primeira oficina do programa, junto com diversas explicações e uma cartilha. Ah, também veio um pote de 240ml de extrato de neem, um repelente natural extraído da poderosa árvore Neem, proveniente do sudeste da Ásia e do subcontinente indiano. Este último item, um plano de contingência no caso da composteira sair do controle e atrair muitas drosófilas, moscas e afins. A montagem foi simples e em cerca de meia hora nossa composteira estava pronta para receber o último - porém não menos importante - elemento: os resíduos orgânicos.

O processo de compostagem é simples. A primeira caixa vai sobre alguma plataforma elevada, para permitir a colocação da torneira ( um tijolo, no nosso caso ), e fica vazia esperando para receber o chorume originado da decomposição . A segunda caixa, que vai no meio, recebe composto, húmus e serragem forrando o fundo da caixa. A caixa do topo recebe o substrato e minhocas e depois a tampa. Na hora de abastecer a composteira, basta retirar a tampa, jogar os resíduos em algum canto e cobrir com serragem ou folhas secas. A composteira aceita qualquer tipo de resíduo orgânico com exceção de limão, carnes, fezes e alguns outros ( mais detalhes nas imagens abaixo ). Após repetir este processo várias vezes durante, em nosso caso, aproximadamente 1 mês, a caixa cheia vai para o meio e a caixa vazia vai para cima e incia-se o processo novamente. Enquanto isso a caixa do meio vai realizar a compostagem naturalmente e depois de mais um mês, praticamente toda matéria orgânica já terá virado adubo, que poderá ser retirado e utilizado para adubar a horta, ou até mesmo doado ou vendido para outras pessoas. Da mesma forma, o chorume, que ficou armazenado na primeira caixa, pode ser retirado pela torneirinha e é um adubo poderoso se utilizado nas proporções corretas.

Considerando nossa alta ingestão de frutas, legumes e outros alimentos naturais, é natural que descartemos uma grande quantidade de todas aquelas partes orgânicas que não utilizamos, como cascas e sementes de algumas frutas e legumes. No primeiro mês, tivemos problemas com drosófilas e ácaros que infestaram a composteira, provavelmente por termos utilizado uma folhagem que não estava totalmente seca, o que aumentou a umidade da composteira. Decidimos descartar a primeira caixa e reiniciamos o processo. Entendemos mais tarde que aquela infestação é recorrente no início de uma compostagem. Atualmente, já enchemos duas caixas e já coletamos o adubo orgânico para utilizar em nossa horta. A compostagem vai de vento em popa, e no momento que viajarmos nestas férias, as minhocas ficarão aqui felizes com bastante alimento para continuar o processo até voltarmos ( se estiver bem carregado, o sistema aguenta até 3 meses sem inserção de novos resíduos ).

É muito gratificante perceber que os sacos de lixo da cozinha, que eram descartados quase que diariamente, agora só precisam ser retirados uma vez por semana. Nossa horta está cada vez mais vigorosa por causa dos adubos e os aterros sanitários da cidade de São Paulo receberão 300 toneladas a menos de lixo orgânico após apenas 5 meses do projeto. Os organizadores já estão planejando uma ação parecida e ainda maior para 2015. Faça sua parte você também.