As tempestades de verão são frequentes nesta época do ano, bem como é recorrente a manchete nas capas dos jornais: “Queda de árvores traz transtornos à cidade.” A cada chuva, pelo menos dez gigantes silenciosas esguelam-se numa súplica tardia: caem sobre os carros, arrebentam a fiação elétrica, bloqueiam as vias e acabam com o sossego mental da rotina sonolenta de muita gente – fazem o maior alarde e causam de fato, um baita estrago: um fenômeno que poderia ser melhor descrito com o velho “chorar sobre o leite derramado”. Depois de algumas ligações enfurecidas, o caminhão da prefeitura chega com a serra elétrica e dá logo um jeito nisso. Pronto, o fluxo foi liberado e a população volta a sua rotina de olhos semi-abertos.

Nós somos cegos, surdos e mudos ao grito de socorro daquelas que filtram o nosso ar. A fotossíntese realizada pelos seres vivos clorofilados é essencial para a manutenção da vida na terra, principalmente porque o processo libera o nosso velho melhor amigo oxigênio. As árvores urbanas são o último resquício de contato com a natureza que nós temos em uma cidade grande como São Paulo e ainda assim, nós, alheios à dificuldade alheia, ignoramos o fato de que estamos estrangulando-as pela raíz. Enquanto filtram o composto de N2, O2 e muito CO2 que respiramos todos os dias, as árvores crescem e, consequentemente, precisam de espaço para tal.

A prefeitura de SP já tem um programa de manutenção de árvores consolidadas, que tem como intenção garantir que as árvores da cidade permaneçam saudáveis e com suficiente espaço para crescer. Contudo, meu caro cidadão, cabe a você abrir os olhos e olhar para que a amiga que garante a sombrinha na frente da sua casa ou apê ao meio dia escaldante de todos os dias, tenha respiro suficiente em meio ao concreto. O resultado é quase uma máxima filosófica aplicável às relações interpessoais: se não deixarmos que elas respirem, elas deixarão de oferecer-nos o que respirar.