“Para você é fácil, porque tem talento!”

Desde o início do ano passado esta é a frase que mais ouço quando as pessoas se dirigem a mim e a minha mudança de hábitos e carreira. Mas já de início compartilho com vocês que não foi e não é tão fácil como pode parecer. Vamos ao início.

“O que você quer ser quando crescer?“ Lembro que ainda pequena respondia àquela pergunta de sempre: “Arquiteta!” Sem ter ideia o que isso realmente queria dizer. Chegou a hora de traçar a carreira ao sair da escola e, após algumas conversas com o meu pai, escolhi! Para os que não sabem, me formei em arquitetura há quase quatro anos atrás, um assunto que sempre me interessou e fascinou muito. O período de faculdade foi de grande aprendizado e novas descobertas nas mais variadas áreas que este tema envolve. Diferentes estágios, desde o início dos estudos, para tentar descobrir o que eu realmente gostaria de seguir. Projetos, novas propostas, concursos e prêmios. Tudo sempre fluiu bem e com sucesso. Mas eu estava sempre feliz em relação a isso? Hoje posso dizer que provavelmente não. Gostava. Sim, gostava. Mas não era a minha paixão.

Na segunda parte dos cinco longos anos de estudo comecei a levar para a sala de aula o que normalmente ficava reservado para o meu tempo sozinha em casa: o desenho. Durante as aulas teóricas de Planejamento Urbano, Topografia, Teoria da Arte ou Resistência dos Materiais, desenhava para que as longas horas passassem mais rápido. Com o tempo descobri que isto me ajudava ainda mais a ouvir e prestar atenção no que estava sendo falado lá na frente. Uma tática muito mais eficiente do que olhar para o professor e fingir estar interessada. Fui criando e crescendo e no tempo livre a vontade de desenhar era ainda maior. Com aprovação dos meus pais comecei a fazer testes na parede do meu quarto. Atrás da porta, caso o resultado não fosse tão bom, não atrapalharia ninguém. Sim, tinha medo e era quadrada!

Durante o ano de 2011 trabalhei em um escritório Suiço durante um ano. O final, para mim e outros que trabalhavam na empresa, não foi tão feliz e fez com que minhas vontades começassem a ser questionadas. Neste momento já havia feito alguns trabalhos de pinturas e ilustrações para os mais próximos. Apenas como hobby. Lembro bem de uma conversa no bar com o meu futuro sócio em meados de Novembro do mesmo ano onde ele me perguntava qual a minha vontade para o futuro. Junto com o Marcos começamos a filosofar sobre a multidisciplinaridade, sobre como seria possível juntar design, com arte e com arquitetura. Tudo parecia muito distante e a pergunta final foi: “Legal vocês sonharem com tudo isso, mas como vão ganhar dinheiro?”

Deixei a filosofia de lado e abri o meu escritório, de arquitetura, no ano seguinte. Tudo parecia ir bem, até que a cidade começou a mostrar que não era um parquinho tão divertido. Os projetos não eram tão fáceis de conseguir e o dinheiro era batalhado. A princípio me sentia feliz e realizada sendo dona do próprio nariz e lutando cada dia por dias melhores - mas o meu corpo não me dizia o mesmo. Indisposição, mau-humor e brigas com todos mais próximos de mim. Um sorriso falso me acompanhava todos os dias desde o momento que saia da cama. Em seguida dores de cabeça intermináveis, dores no corpo, falta de sono, falta de vontade de me exercitar, ansiedades incontroláveis, abstinência sexual e a falta de vontade de socializar com qualquer pessoa… Até que um dia dores na área do abdômen que me deixavam na cama por dias e ligações para o meu sócio do tipo: ”Não estou me sentindo bem e hoje vou trabalhar de casa” (ao invés de nossa mesa em um co-working) tornaram-se comuns. Visita a inúmeros médicos e laboratórios já faziam parte de todas as minhas semanas. Até que um dia fui diagnosticada com uma inflamação no intestino, causada por stress emocional. O corpo gritava! E eu continuava me enganando. (este foi o gatilho para mais tarde eu descobrir que sou intolerante a glúten)

A relação com os meus pais ia mal. Amigos? Nem sabiam que eu existia mais. A minha relação com o Marcos piorava a cada dia. Até que um dia ele falou: “Eu estou aqui, tentando te ajudar, esperando você sair dessa, mas não sei quanto tempo aguento, e não posso garantir.” Resolvi então prestar mais atenção. Fiz uma visita à Sandra, uma pessoa querida, que não é médica, mas sim química e através de diálogos e análises dos fluídos e metais do corpo ajuda pessoas a curarem doenças graves e não tão graves. Ela me incentivou indiretamente ao me contratar para fazer o seu novo cartão de visita e logomarca, e me encaminhou para um analista. Sim! Eu fiz terapia e outros tratamentos de ervas, acupuntura e tudo que você possa imaginar (e o que eu imaginava que nunca faria, afinal estava feliz!). A Sandra hoje diz: “Você era uma flor no deserto gritando por água!”

Muitas conversas com o sócio, que logo deixou de ser, com o Marcos e com os meus pais foram abrindo os meus olhos e coração. O fluxo de trabalho era maior na arte e design do que na arquitetura. O que faltava para eu assumir que eu deveria seguir outro caminho? Falar em voz alta: eu quero mudar! Foi fácil? Não! Muito longe disso! Tenho um talento? Talvez… mas acredito, e aconselho, que a evolução vem com a prática e que não basta ter um talento. A cada dia de trabalho, de leitura, de pesquisa, noto o meu crescimento profissional e pessoal. Sorrio ao lembrar e agradeço todos os dias àqueles que acreditaram. Dar certo em uma mudança profissional vai muito além de um talento - e sim da força de assumir aquilo que te faz feliz, aprender a ouvir o que o seu coração e corpo dizem, ter autonomia, responsabilidade, disciplina, estar sempre atento ao mercado e às tendências, programar, estudar, ser humilde e ouvir o que os outros tem a dizer. Toda manhã acordo sem saber como será o dia, como será o mês, como será o próximo trabalho, como vou pagar as contas. Isto é fácil? Não! Mas é o que me faz sorrir todas as noites antes de dormir.