Ao voltar das férias, já no carro entre o aeroporto, (rodoviária, ou estação de trem), a caminho de casa começam as típicas perguntas: “Como foi sua viagem?” “Qual lugar mais gostou?” “ O que mais gostou por lá?” Depois de viajar 15 países, 25 cidades, conhecer 12 pessoas ao longo do caminho, sentir 100 cheiros novos, acrescentar 52 novas cores na paleta pessoal e ver 33 paisagens jamais vistas pelos seus olhos, acho um tanto quanto difícil responder estas perguntas. E, para ser sincera, não gosto nem um pouco de ouvi-las (fica a dica). Viajar vai muito além de pegar um voo, um ônibus, um trem, ou qualquer outro meio de transporte, fugir da realidade ou ser apenas mais uma cabeça naquelas excursões pra lá de programadas.

Viajar é uma habilidade que requer prática para despertar um olhar curioso. Valorizamos os pequenos movimentos e momentos, em busca de algo desconhecido, o ato de se perder de propósito, o caminhar sem pressa (embora o caminhar excessivamente lento do Marcos me mantenha, na maioria das vezes, um quarteirão à frente), uma conexão com a cultura local, a tentativa de se comunicar na língua estranha aos nossos ouvidos, a descoberta de lugares secretos, as sensações de cheiros e sabores, a observação de pessoas e ambientes. A viagem se torna uma imersão em um novo mundo. Viajar por apenas um dia, ou semanas, ou meses, tem o poder de nos fazer evoluir, crescer e até desabrochar em sensações, pensamentos e opiniões. As melhores viagens estão relacionadas às experiências vividas.

Este ano eu decidi tentar algo novo, pular a minha cerca do conforto pessoal, e fazer as malas para seis meses longe. Longe dos amigos, de casa, da rotina e do Marcos também. No início foram três meses de primavera e verão (com sensação térmica de outono e verão) na Suíça, que passaram mais lentamente e com um pouco mais de dificuldade por estar longe. Aquele lance de relacionamento a distância sabe? Acho que não preciso dar maiores explicações neste assunto. Para mim cada dia era uma descoberta diferente, um lugar, uma pessoa, viagens para países vizinhos, um possível contato de trabalho e todo aquele tempo ao lado da minha irmã com quem não convivia há anos. Finalmente chegou o dia para a nossa, do Marcos e eu, viagem pela Europa. Ao acordar e pegar o trem para o aeroporto só sentia aquele frio na barriga. O mesmo que ficou ainda mais forte ao ver aquele homem cabeludo saindo do portão depois de uma hora em pé sofrendo sozinha. Uma troca de olhar, um abraço desajeitado e segurar a mão para atravessar a rua. Parecia um sonho desengonçado. No início fica aquele estranhamento no ar, de quem não se vê há tanto tempo, mas logo vai passando ao compartilhar aventuras que ali vivi nos últimos três meses. Um novo mundo de sensações e novidades se abrindo à nossa frente. Depois deste dia, quarenta passaram, pela Suiça, França e Espanha.

Cruzar a Suiça de TGV em direção à Paris (lá onde tomamos esta decisão, a de construir um lar. Romântico não?), alugar um carro e dirigir mais de dois mil quilômetros, passando por Besançon, Genéve, Annecy, Chamonix, diversas cidades charmosas na Provence, Cassis, Le Castelet, Nimes, Castres e a esticada final até Biarritz. Depois disto continuar a aventura de trem, cruzando a fronteira para a Espanha, por cidades aparentemente desabitadas, conhecendo Zaragoza de bicicleta, continuar para Madrid, onde encontramos com amigos para celebrar um casamento especial de outra amiga, a Alexis, e finalmente para Barcelona, o nosso último destino. Resumindo, em torno de vinte novas cidades, três linguas, além do inglês e portugês diários, cheiros diferentes, sensações estranhas, noites bem e mal dormidas, pessoas intersessantes, reviravoltas inesperadas, escolhas impulsivas, comidas sensacionais (a preço de banana diga-se de passagem) e freadas bruscas de carro para apreciar mais um campo de girassóis e lavanda. Aí vem aquela pergunta novamente “Qual lugar mais gostaram?” ou “Do que mais gostaram?”. Difícil dizer não?