Quando foi a ultima vez que lavou o carro?

Quando escova os dentes deixa a torneira mais tempo aberta do que deveria?

Ao lavar a louça ensaboa tudo e depois enxagua?

Ao explodir a notícia de que a Represa da Cantareira estava com 20% de sua capacidade, e que pouco estava sendo feito a respeito, comentamos no meu grupo de família no Whatsapp. Meu cunhado, australiano e vivendo lá com a minha irmã, na mesma hora falou:
“Que absurdo! Aqui na Australia quando as reservas chegam a 80% já começa o racionamento.”

Fui averiguar a informação e encontrei um complexo sistema de monitoramento e racionamento de água por todo o país. O racionamento começa logo no início das secas. Cada cidade tem especificações e exigências diferentes, e estas dependem principalmente da localização das cidades, que define a proximidade às represas e quantidade de chuva para abastecê-las. O racionamento é dividido em estágios (stages) de 01 a 08, mas algumas especificações são fixas e devem ser seguidas sem restrições desde o início do período. Algumas cidades chegam a ter restrições permanentes durante todo o ano, como por exemplo: horários para irrigação dos jardins, não utilizar água da torneira (em grande maioria potável) para lavar carros, caminhos ou garagens, entre outros. A população segue as regras sem questionar, pois sabe que as consequências de não seguir são muito piores. O escritório de Meteorologia da Australia até criou um aplicativo chamado Water Storage (por enquanto apenas disponível para iphones) que, através da sua localização, te informa os dados de precipitação, níveis das represas próximas e medidas de racionamento vigentes.

Igual aqui não é?

Não falo apenas de medidas e engajamento do governo (que já temos muitas notícias nos informando das medidas – ou da falta de – que estão sendo tomadas), mas também da colaboração da população. A nossa represa da Cantareira está sofrendo um período de seca que há décadas não acontece. Os maiores prejudicados? Mais de 14 milhões de habitantes da cidade de São Paulo, cidades do interior e industrias. O restante da população, que atualmente chega a 20 milhões em São Paulo, é abastecido por outras represas como Alto Cotia, Baixo Cotia, Guarapiranga, Alto Tietê, Ribeirão da Estiva, Rio Claro e Rio Grande. O racionamento acontece, mas a população já sente que a água está acabando, e a época de seca apenas começando.

Estes dias, quando comentei das políticas adotadas na Australia, um amigo me disse que as pessoas não acreditam que a água vá acabar. Se ali não tem, tem em outros lugares. Acham que se “só elas” lavarem o carro não tem problema. Indústrias, que são abastecidas pela Cantareira, e que utilizam a água principalmente para refrigeração, estão sentindo a escassez, mas começam a pedir caminhões pipa para solucionar o problema. Não podem parar. Tempo é dinheiro. Postos de gasolina, com grandes centros de lavagem de carros, também pedem caminhões pipa de outras represas para não pararem o negócio. Água é dinheiro. Sim… é! Água potável é vida. E quando acabar do fundo morto da Cantareira? Quem será a próxima da lista? A sua casa? Ou a minha?